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Dicas de Saúde Bucal

ERA UMA VEZ UMA CRIANÇA QUE ADORAVA DENTISTAS...
Cada faixa etária apresenta um comportamento característico frente a situações novas e assim como o adulto, é preciso considerar os medos e as expectativas da criança no tratamento dentário

A sala de espera do consultório tem um espaço com jeito de “cantinho da criança”. Bonecas de todos os tamanhos disputam com os bichos de pelúcia a atenção das crianças. À pouca distância da famosa cadeira de dentista, outros brinquedos fazem a alegria da garotada. Há, inclusive, um jacaré com uma bela dentadura que serve de modelo para que a criança possa treinar a escovação correta dos dentes ou se imaginar  tratando uma cárie. È nesse ambiente divertido e simpático que a odontopediatra Maria Naira Friggi atende desde bebês com menos de um ano de idade até adolescentes. De vez em quando, aparece um rapagão de 20 anos querendo matar a saudade da dentista querida. Todo esse carinho não é fruto do acaso, mas, sim, resultado de uma relação de confiança que Naira estabelece em cada paciente.

Se os jovens de hoje não têm pavor de dentista, o mesmo não se pode  falar daqueles que foram crianças e adolescentes algumas décadas atrás. Muitos guardam lembranças amargas dos consultórios da infância: dentes arrancados no meio da noite sem anestesia ou broncas pelo choro repentino. A imagem que surge nas recordações é do homem de branco, com um motorzinho terrível na mão, que mais parecia um vilão do que alguém disposto a ajudar. Os profissionais, por sua vez,  pouco se preocupavam com a opinião das crianças. Afinal, o que um garoto de cinco anos poderia dizer sobre um tratamento dentário?

Para a doutora Naira, coordenadora do Curso de Especialização em Odontopediatria da Escola de Aperfeiçoamento Profissional da APCD, ouvir o garoto faz, sim, toda a diferença. “O dentista precisa dar mais espaço para a criança dentro do tratamento”, ensina. “É necessário acreditar nela e levá-la a sério”. A máxima vale tanto para uma reclamação de dor ou de choro inesperado, quanto para uma atitude mais esquiva, ou, ainda, para saciar a curiosidade natural da garotada: “Tia, para que serve essa massinha branca que vai no meu dente?” “Até os bebês sabem expressar”, conta  a odontopediatra. “E isso acontece por meio do não-verbal. Daí a importância de se estar atento aos sinais que a criança passa”. Cada faixa etária apresenta um comportamento característico diante de situações novas, como, por exemplo, um tratamento dentário. Os menores muitas vezes não colaboram com o tratamento simplesmente porque não entendem direito o que está acontecendo à volta delas. “É comum que um bebê ou uma criança pequena chorem diante de um estranho ou ao sentir-se num ambiente desconhecido”, comenta Naira. “O profissional deve, então, aprender a conquistá-los aos poucos, com carinho”.

Isso acontece até por volta dos três anos de idade. A criança vai assimilando o que o mundo ao redor lhe proporciona. Descobre-se diante de situações corporais diferentes como ficar deitada numa cadeira – experimenta gostos estranhos na boca e começa a ter noção do que sente. “É importante também que, nessa fase, ela entre em contato  com o instrumental do dentista, reconstruindo a realidade”, diz Naira. Por isso, o jacaré com dentadura faz tanto sucesso. “A criança brinca com um objeto concreto fazendo a projeção de um conteúdo subjetivo”, diz. “Escovar os dentes do boneco, cuida dele o mantém sentado na cadeira. Na hora em que vou começar o trabalho, ela se torna tranqüila e receptiva”, completa.

A partir da idade escola, os pacientes começam a entender ordens. Os maiores já compreendem o que representa um tratamento dentário. No entanto, têm vontade própria, sentem medo e até se estressam diante de situações de dor. Por isso, o odontopediatra precisa, em primeiro lugar, estabelecer um canal de comunicação com eles. “O dentista tem de respeitar o período de adaptação da criança, ou seja, acreditar nas queixas”. Diz Naira. Ela define uma espécie de roteiro que todo odontopediatra deveria seguir: receber bem a criança no consultório, ver, ouvir o que ela tem a dizer, conduzi-la ao tratamento de maneira gradual e progressiva (fazendo-a compreender sua importância e necessidade), para só depois tratá-la. “O pulo  do gato é enxergar a criança como pessoa e não como um ser que não sabe expressar-se”, contata. “Devemos respeitar sua individualidade, aprender a sintonizá-la.

O paciente vai sentir-se integrado ao ambiente na medida em que o dentista procura conversar com ele e entender suas dúvidas e seus receios – que não são os mesmos dos adultos. “Se hoje uma criança, em geral receptiva, não está colaborando, algo deve ter acontecido. Vou procurar saber”, ensina Naira. Para ela, todo paciente – seja criança ou adulto – carrega impressões de situações que já viveu para dentro do consultório. Por isso, é necessário que o dentista descubra do que o paciente tem medo – se de escuro, de barulho, ou outros -, antes de iniciar o tratamento, afim de que se estabeleça uma relação interpessoal e participativa, sim, a não ser em casos, mais específicos de filhos mimados ou malcriados”, diz a odontopediatra. “De uma certa forma, elas refletem o comportamento que aprendem nos ambientes em que vivem.”

Então, é fundamental também conhecer os pais desde a primeira entrevista. Vez ou outra, a relação com as mães do paciente pode ser um pouco complicada devido a ciúme, principalmente, quando a criança é “difícil”. Para a mãe, parece que a odontopediatria está disputando com ela a atenção e a colaboração da criança. “A mãe chega ao consultório dizendo que o filho não vai colaborar e, de repente, ele se torna um paciente ótimo. Em geral, ela fica enciumada – afinal, alguém conquistou seu filho para colaborar em algum procedimento, o que ela não conseguiu”, comenta a dentista. “Até que (a mãe) perceba que também é necessária ali, que precisa participar do tratamento, estar presente”, o odontopediatra precisa conquistar sua confiança. Naira conta a história da mãe cujo filho teve de usar um aparelho ortodôntico que se ajusta à cabeça – conhecido por aparelho extra-oral – e que é um tanto incômodo. Ela  não gostou, disse que o filho não colocaria aquilo, mas a criança aceitou sem objeção e passou a usá-lo sem reclamar. A mãe se perguntava, então, como alguém havia conseguido fazer seu filho usar um aparelho horroroso que ela mesma não usaria. O tempo foi passando até ela compreender que seu filho era capaz de entender  e aceitar a necessidade de um tratamento e que, para tanto, ela deveria transmitir segurança, reforçando a confiança da criança em si mesma e no profissional.

Outro ponto essencial que a doutora Naira destaca é o respeito que o profissional deve ter com a boca da criança. “A boca é uma região muito íntima e, na criança, isso está mais exacerbado, porque para ela a boca é fonte de todo prazer e de toda dor. No seio materno, recebe alimento e o prazer do amor”, afirma. “Por isso, o dentista deve pedir licença para ´invadir` esse espaço”. Não deve ser como o lobo mau na história dos três porquinhos, que chega destruindo as casas de madeira e de palha.A propósito, essa é a história que a doutora Naira mais sabe contar para seus pacientes, sempre colocando a criança como personagem. “Os olhinhos de brilham”, diz. De vez em quando, em CD de músicas infantis para pequenos ou de rock para os maiores entra em cena. Quando as crianças se cansam da história dos três porquinhos, a dentista recorre aos CDs com outras histórias de faz-de-conta. Mas elas sempre começam assim: “Era uma vez uma criança que adorava ir ao dentista para aprender a escovar os dentes e ganhar brindes...”.


Fonte:
Maria Fernanda Vomero
CONSULTORIA ESPECIAL PARA REPORTAGEM:
Elaine G. dos Reis Alves (Psicóloga, Mestranda em Odontologia Social pelaFOUSP.)
Fonte: Revista APCD Vl. 54 – Jul./Ago.-2000



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