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ADESÃO EM DENTINA HIPERMINERALIZADA: Como Prodecer?


A dentina é formada por cerca de 70% de minerais na forma de hidroxiapatita, 20% de material orgânico (fibras colágenas) e 10% de água. Por apresentar estrutura tubular, possui resiliência ou elasticidade, de desempenhando importante papel na sustentação do esmalte e no amortecimento de forças mastigatórias. È um tecido avascular e que apresenta apenas prolongamentos celulares em seu interior, com coloração amarelada que se torna mais intensa com o envelhecimento pela deposição de dentina secundária.

Devido a processos patológicos ou fisiológicos, a dentina pode sofrer alterações no seu conteúdo mineral e orgânico, podendo apresentar-se desmineralizada por processos cariosos e/ou erosivos ou ainda hipermineralizada (Figuras 1, 2 e 3).

A dentina hipermineralizada difere dos outros tipos de dentina por apresentar o lúmen tubular ocluído. Essa oclusão dos túbulos dentinários pode ocorrer devido à deposição de minerais da saliva em locais em que a dentina encontra-se exposta ao meio bucal (áreas de retração gengival, fraturas de dente ou interface dente-restauração) ou à formação de dentina esclerótica em virtude de algum trauma ou lesão cariosa crônica próxima à polpa. Esses depósitos de minerais ou a produção de dentina esclerótica levam a um aumento de dureza e induzem alterações nas características ópticas dentinárias, conferindo à estrutura uma aparência lisa e vítrea.

Em virtude dessas alterações estruturais, variações morfológicas dentinárias podem determinar uma redução da qualidade adesiva, sendo que esse efeito pode ser dependente dos adesivos utilizados. Observa-se que nas lesões esclerosadas e/ou hipermineralizada torna-se mais difícil a união da restauração quando comparadas com a dentina normal, bem como observam-se resistência adesiva baixa e infiltração marginal.

A presença de camada hipermineralizada, bactérias e túbulos minerais fundidos na dentina esclerótica é análoga à presença da “smear layer” e de “smear plugs” na dentina saudável, considerados obstáculos potenciais para a infiltração do “primer” e da resina nas fibras colágenas. O efeito desses obstáculos de superfície na redução da espessura da camada híbrida é mais pronunciadamente perceptível ao longo das paredes gengivais e oclusais das cavidades devido à presença de uma superfície hipermineralizada com mais de 0,5µm de espessura, tornando difícil a formação da camada híbrida quando da utilização de um adesivo autocondicionante, já que esses sistemas adesivos não conseguem penetrar na superfície dentinária muito além dessa profundidade. Tendo em vista que a dentina hipermineralizada apresenta características microestruturais diferentes que podem necessitar de diversos tratamentos superficiais para se obter uma adesão adequada, esse trabalho apresenta como objetivo discutir os processos de formação de dentina hipermineralizada, bem como a adesão de diferentes sistemas restauradores.

MECANISMO DE FORMAÇÃO DE DENTINA HIPERMINERALIZADA

Vários processos podem levar à formação de dentina hipermineralizada. Em relação à dentina esclerótica, sabe-se que é produzida em virtude de algum trauma ou processo carioso ou patológico no elemento dental. Localiza-se na periferia da câmara pulpar, próximo a lesão, com o objetivo de promover um distanciamento entre esta e a polpa para que o processo lesivo não comprometa a vitalidade pulpar (Figura 1). Consequentemente, há redução do volume da polpa e diminuição dos componentes celulares, presença de massas calcificadas e redução dos suprimentos sanguíneo, linfático e nervoso.Por ser produzidas de forma rápida, os túbulos apresentam desorganização estrutural e aumento da quantidade de colágeno e matriz mineralizada. Em comparação às dentinas primária e secundária, a esclerótica apresenta 75% dos túbulos ocluídos, conferindo à estrutura perda de sensibilidade e cor amarelo-escura ou marron (Figura 2). Isso reduz  a permeabilidade da dentina e prolonga a vitalidade pulpar. Por esse motivo, há a potencialização da resistência da matriz intertubular ao desafio ácido, reduzindo a profundidade e qualidade de desmineralização durante o condicionamento ácido da dentina para a formação da camada híbrida, que normalmente é mais fina e com “tags” resinosos raros ou ausentes quando comparada com a dentina normal nos procedimentos adesivos. Nas situações em que se deseja favorecer a produção de dentina esclerótica, o hidróxido de cálcio – quando usado como forrador cavitário – pode apresentar efeito bacteriostático e neutralizador de pH devido à propriedade alcalina, propiciando sua formação em um meio mais adequado.

Em algumas situações, deseja-se obter a hipermineralização dentinária como um meio de paralisar lesões de cárie presentes em dentina. Controle de placa bacteriana, utilização de produtos fluoretados e restaurações com cimento de ionômero de vidro podem prevenir a progressão de lesões cariosas nessas regiões, favorecendo a remineralização ou interferindo no crescimento ou metabolismo das bactérias cariogênicas restantes. A formação de uma superfície dentinária hipermineralizada (Figura 3) pode ocorrer com a deposição de glóbulos de fluoreto de cálcio na entrada dos túbulos dentinários, conferindo aumento de dureza superficial e alterações nas características ópticas dentinárias, ocorrendo incicialmente na camada superficial da lesão. Quando o conteúdo de minerais da camada superficial encontra-se próximo do valor de uma dentina normal, a deposição ocorre no corpo da lesão, podendo levar à  remineralização em casos avançados.

DISCUSSÃO
Uma vez que os túbulos dentinários da dentina hipermineralizada encontram-se, em sua maioria, obstruídos superficialmente, as técnicas restauradoras que empregam o uso de agentes condicionadores e sistemas adesivos que levam a formação da camada híbrida podem apresentar-se comprometidas.
Portanto, quando da utilização de sistemas adesivos que empregam o procedimento de condicionamento ácido, a estrutura da dentina hipermineralizada pode não ser considerada efetiva para adesão, levando a baixos valores de adesão e à infiltração marginal. Da mesma forma, estudos laboratoriais revelam que a espessura da camada híbrida formada em dentina esclerótica é altamente variável, o que é parcialmente atribuído à obliteração dos túbulos dentinários que previne a formação dos “tags” resinosos. Assim, havendo aplicação de um sistema adesivo e consequentemente formação de uma camada híbrida, esta será mais fina, apresentando “tags” resinosos raros ou ausentes.
Nesse contexto, Perdigão, 1994, analisaram quatro sistemas adesivos (All Bond 2, Amalgambond Plus, Prisma Universal Bond 3 e Scotchbond  Multi Purpose) em um teste de resistência ao cisalhamento em superfícies com diferentes níveis de mineralização. Os resltados mostraram que a adesão à dentina hipermineralizada foi significativamente menor que à dentina normal.
Em um outro experimento conduzido por Nakajima, em 1999, em que a força de adesão foi estudada através de ensaios de microtração, três adesivos foram avaliados (All Bond 2, Scotchbond  Multi-Purpose e Clearfil Liner Bond 2V). A força de adesão da dentina esclerosada foi significativamente menor para os três sistemas adesivos quando comparada com a da dentina normal, mostrando que precauções devem ser levadas em consideração ao se trabalhar em um substrato alterado.
Por outro lado, a aplicação dos agentes condicionantes demonstra melhorias apenas na adesão à parede gengival das lesões. A análise microscópica comprovou a não efetividade dos sistemas adesivos em condicionar a camada superficial hipermineralizada na dentina esclerótica localizada nas paredes pulpar e/ou axial de um preparo. Uma alternativa à utilização dos sistemas restauradores adesivos seria o emprego de materiais ionoméricos.
Assim, quando se utiliza um ionômero de vidro convencional, pode-se observar menor microinfiltração marginal em relação a uma resina composta modificada por poliácido em dentina esclerosada. Isso ocorre, provavelmente, devido à maior liberação de flúor proporcionada pelo material ionômerico convencional, uma vez que uma adesão química fraca é esperada entre o material e a dentina por não haver a formação de uma camada híbrida.

CONCLUSÃO
A dentina esclerosada constitui uma defesa natural e deve ser preservada. Em situações em que há a presença de dentina hipermineralizada, preconiza-se a restauração ou a confecção de base/forramento com o ionômero de vidro, já que a adesão não depende exclusivamente da formação da camada híbrida.

Fonte:
Revista APCD Vol. 59 – Jul. Ago./2005
• Bruna Maria Covre Garcia da Silva
Aluna de graduação em odontologia do Centro Universitário Heumínio Ometto, UNIARARAS.
• Roberta Tarkany Basting
Professora Doutora de Centro de Pesquisas Odontológicas São Leopoldo Mandi

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