Home
Acesso Rápido
Listagem de Dentista
Artigos Científicos

CHUPETA: AMIGA OU INIMIGA ?

O ser humano, desde a vida intra-uterina, instintivamente realiza a sucção dos dedos, lábios e língua, de tal maneira que, no momento do nascimento, a função de sucção encontra-se plenamente desenvolvida(8,21).

A sucção de chupeta é um dos hábitos orais sem fins nutritivos mais freqüentes, apresentando prevalência de aproximadamente 75% nos primeiros anos de vida e reduzindo-se rapidamente com a idade(5,16,26).

A sucção, além de satisfazer a necessidade nutritiva, proporciona a criança uma sensação de segurança, prazer e satisfação (sucção não nutritiva)(23), fazendo com que muitas vezes ela recorra à chupeta, dedo ou objetos quando atingiu a sensação de plenitude alimentar, mas não supriu suas necessidades emocionais(12).

No final de 1950, um novo desenho de bico de chupeta foi introduzido nos Estados Unidos. Conhecida como Chupeta ortodontia NUK TM, foi a precursora dos modelos atuais, sendo indicada para realizar movimentos de estimulação muscular que mais se assemelham ao ato de alimentar-se no seio materno, conseqüentemente conduzindo para o desenvolvimento mais normal do arco dental(1).


PROPOSIÇÃO
Neste trabalho nos propomos, com base na revisão da literatura, avaliar os efeitos emocionais  e funcionais do hábito de sucção de chupeta, bem como analisar qual hábito oral seria menos prejudicial à oclusão, verificando também diferentes bicos de chupeta.

REVISÃO DA LITERATURA
1- Bico ortodôntico ou convencional
TENTI(23) (1993) afirma ser necessária uma ação preventiva com a indicação, pelo profissional, da chupeta de bico chato se a criança sentir necessidade de sucção, pois, se ela experimentar uma chupeta convencional de bico redondo, recusará a de bico chato, pelo uso desta ser menos prazeroso.

Segundo MERCADANTE(14) (1996), O uso da chupeta ortodôntica parece ser mais indicado para a complementação da necessidade de sucção da criança, pois se adapta melhor à boca, permitindo um contato maior da língua com o palato durante a deglutição(12,14,18,19).

ROSSI(17) (1998) recomenda, dentre os vários tipos de chupeta, o Uso das ortodônticas que, pelo seu formato, minimizam os efeitos negativos desse hábito(16,17).

2- Chupeta ou Dedo
BAER, LESTER(2) (1987) relatam que, se a criança colocar seu polegar na boca, deverá ser oferecida a chupeta. Isso leva a uma descontinuidade deste hábito e diminui a probabilidade de ocorrer má-oclusão. Afirmam, ainda, que a probabilidade da ocorrência de más-oclusões, com o uso de chupeta, é menor quando comparada com a sucção de dedo, além de que a chupeta pode ser eliminada mais facilmente (2,26).

CHRISTENSEN, FIELDS(6) (1996) e CUNHA et al.(7) (1998) dizem que as alterações na dentição e na oclusão, provocadas pelo uso de chupeta ou por sucção digital, são, em geral, semelhantes. Mas a sucção do dedo, por ser este intracorpóreo, ter calor, odor e consistência muito aproximados aos do mamilo materno, e por estar sempre presente, torna mais difícil o controle e a remoção do hábito, persistindo após os três anos de vida, na maioria dos casos. Comparativamente, menos de um terço das crianças que usam chupeta a requerem além dos três anos de vida.

A ocorrência, o tipo e a gravidade da má-oclusão, provocada pelo hábito de sucção de chupeta, dependem dos fatores relacionados com o próprio hábito (Tríade de Graber), da resistência alveolar e do padrão dentofacial inerente à criança(20,21) . A Tríade de Graber é composta pela intensidade, que é a quantidade de força aplicada durante a sucção; pela freqüência, ou seja, o número de ocorrências do hábito durante o dia; e pela duração, que se define como a quantidade de tempo que é dedicado ao hábito; este último é o fator mais crítico na movimentação dental produzida por um hábito de sucção(6,13).

As evidências clínicas e experimentais sugerem que se requer de quatro a seis horas de força diária para provocar um movimento dental. Sendo assim, na criança que realiza sucção com intensidade alta e de maneira intermitente, possivelmente não ocorrerá movimentação dental, enquanto noutra, que a realiza de modo persistente (durante mais de seis horas), haverá uma movimentação dental significativa(6,7).

A chupeta tem um importante papel na sucção até a época de erupção dos primeiros dentes decíduos, pois estimula o desenvolvimento favorável das arcadas dentárias. Para tanto, a chupeta deve(7,16,19):

• ter bico ortodôntico, para se adaptar perfeitamente à cavidade bucal da criança, ajustando-se ao palato e à língua e acompanhando bem o movimento de sucção;

• apresentar o disco plástico ou apoio labial com formato côncavo voltado para a cavidade oral e perfurações para evitar o acúmulo de saliva e a conseqüente irritação da pele;

• • apresentar apoio lateral maior que a boca da criança, para evitar que a chupeta seja colocada inteira dentro da cavidade oral e para proporcionar vedação;

não possuir argola de apoio plástico, para que a mãe não pendure um cordão ou corrente, evitando o risco de estrangulamento ou o aumento do peso da chupeta, além do risco de reforço do hábito;

• ter o tamanho do bico compatível com o desenvolvimento da criança, para não provocar posteriorização da língua.

Deve-se observar a posição correta da chupeta no momento da sucção, verificando se não está invertida.

PASTOR, FRANCO(16) (1999) alerta que a chupeta não deve ser ofertada como apoio emocional, lazer e muito menos para substituir a atenção e carinho dos pais. Segundo alguns autores, quando este hábito perdura por muito tempo, tem-se observado, em muitos casos, que há falta de relacionamento materno-infantil(18).

Os problemas bucais mais freqüentes, decorrentes dos hábitos de sucção não nutritiva prolongados, são(6,7): mordida aberta anterior, normalmente com contorno circular; constricção da maxila e conseqüente mordida cruzada  posterior; movimentação vestibular dos incisivos superiores e lingual dos inferiores; desenvolvimento de interposição  lingual e alteração no padrão de deglutição na articulação das palavras.

KLEIN(10) (1971), ZADIK et al.(26) (1977), SILVA FILHO et al.(20) (1986), ESTRIPEAUT et al(8). (1989), SILVA FILHO et al(22). (1991) e CUNHA et al(7). (1998) afirmam que, se a criança abandonar o hábito de sucção durante a primeira dentição, entre os três e os quatro anos de idade, existe a possibilidade  de a mordida aberta anterior se auto-corrigir, embora essa correção espontânea possa ser prejudicada por outros hábitos deletérios, como interposição lingual e respiração bucal(4,7,15,20,21,22). Essa tendência de auto-correção diminui abruptamente quando o abandono do hábito ocorre na dentadura mista e, principalmente, na permanente(20).

Primeiramente deve-se analisar se há envolvimento da sucção de chupeta na produção ou manutenção de má-oclusão, já que essa pode ter origem hereditária ou congênita, e não ser somente adquirida(4,13).

É importante destacar que os efeitos do hábito de sucção só se fazem sentir naqueles indivíduos cujo padrão esquelético facial predispõe a desvios mais drásticos. Da mesma forma, os padrões faciais corretos, definidos por forças inerentes ao crescimento, muitas vezes não são atingidos e, quando acontecem desvios, a simples remoção do hábito é o suficiente para a normalização do crescimento(2,12).

Segundo TENTI(23) (1993), mesmo quando as deformidades devidas à sucção forem evidentes, Não é necessário dramatizar, pois, freqüentemente,

É impossível estabelecer uma idade para o início do tratamento de hábito bucal indesejável. Porém, freqüentemente, apenas alterações dentoalveolares estão envolvidas e, dessa forma, podem ser facilmente corrigidas, mesmo numa idade avançada.

apenas nas alterações dentoalveolares estão envolvidas e, dessa forma, podem ser facilmente corrigidas, mesmo numa idade avançada.

É impossível estabelecer uma idade para o início do tratamento de um  hábito bucal indesejável. O momento oportuno varia de indivíduo para indivíduo, de acordo com o desenvolvimento da criança e a gravidade do hábito, sendo que cada criança deve ser examinada à luz de sua personalidade e de seu ambiente psicoafetivo(11,24). A remoção da chupeta  deve ser gradativa, uma vez que o hábito de sucção está relacionado a fatores emocionais; há relatos de interrupção abrupta do uso da chupeta que levou ao desenvolvimento de hábitos ainda mais deletérios(16).

Por um consenso alcançado e disseminado entre os profissionais de saúde, a interrupção do hábito de sucção da chupeta é desejável o mais cedo possível, pois a flexibilidade óssea guarda uma relação inversa com a idade(20,21).

WALTER et al.(25). (1996) sugere o uso de medidas não traumáticas para remoção desse hábito, tais como:

• sugestão noturna, que consiste na utilização da fala durante o sono profundo, com o objetivo de atingir o subconsciente, devendo ser utilizada frase curta e objetiva, evitando-se a palavra “não”; outro componente importante é não mencionar nada relativo ao uso da chupeta durante o dia;

• transformação do “hábito prazer” em “hábito obrigação”, isto é, ao invés de repreenderem a criança pelo fato de sugar a chupeta, os pais devem estimulá-la, de tal forma que esse hábito passe a ser uma obrigação;

• Férula de Anke, que consiste numa férula plástica de 0,5 a 1mm de polietileno transparente ou colorido que cobre os dentes e o palato, eliminando o contato com a mucosa e, conseqüentemente, o prazer que a sucção da chupeta traz(16,25).

BLACK et al.(3) (1990), Lino(13) (1994), BONI et al.(4) (1997) e CUNHA et al.(7) (1998) sugerem o método da conscientização da criança e dos pais, que consiste no esclarecimento sobre as possíveis alterações clínicas que o hábito de sucção poderá determinar no paciente, através de visualização no espelho, fotografias, gravuras e livros e slides, associado ao reforço positivo, que pode ser qualquer elemento que fortaleça o comportamento adequado, tais como elogios, sorrisos, abraços e prêmios. As ameaças e medidas punitivas, em geral, são infrutíferas como tentativa de motivar a criança a deixar este hábito. Deve-se evitar colocar pimenta, pois isso não traz benefício algum(7,9,13,23,24).

MERCADANTE(14) (1996) lembra que se deve ter em mente que a má-oclusão pode ser corrigida em qualquer época da vida, enquanto que um problema psicológico sério pode persistir por toda a vida, levando a problemas muito mais graves que a própria má-oclusão.

CONCLUSÃO
Com base nos trabalhos analisados na revisão da literatura, conclui-se que:

• a sucção supre a necessidade fisiológica de nutrição, mas também representa um aspecto emocional importante para criança, proporcionando-lhe satisfação, prazer e segurança;

• o bico ortodôntico é o que melhor se adapta na boca, pois se assemelha mais ao bico do seio materno, causando menos alterações na oclusão que o bico convencional;

• a chupeta ajuda a prevenir hábito de sucção mais deletérios e de difícil remoção, como a sucção digital;

• a maioria das alterações provocadas pela chupeta pode se auto-corrigir, desde que o hábito seja interrompido por volta dos quatro anos de idade;

• existem vários métodos para tentar eliminar o uso da chupeta, sendo mais efetivos os não traumáticos.

  * Artênio José Ísper Garbin é Doutor em Ortodontia pela Universidade Estadual de Capinas.

 ** Cléa Adas Saliba Garbim é Professora Assistente Doutora do Departamento de Odontologia Infantil e Social da Faculdade de Odontologia de Araçatuba da Universidade Estadual Paulista.

*** Suzely Adas Saliba Moimaz é Professora Assistente Doutora do Departamento de Odontologia Infantil e Social da Faculdade de Odontologia de Araçatuba da Universidade Estadual Paulista.

(1). ADAIR. S. M. et al. Evaluation the effects of orthodontic pacifiers on the primary dentitions of 24 to 59 month old children: preliminary study. Pediatr Dent. v. 14, n.l. p.13-18. Jan./Feb. 1992.

(2). BAER. P. N. LESTER, m. The thumb, the pacifier, the erupting tooth and a beautiful smile. J Pedod. V. 11, n. 2, p.113-119. Winter 1987.

(3). BLACK. B. et al. Hábitos bucais nocivos. Ortodontia. V.23. n. 2.p. 40-44. mai./jun./ago. 1990.

(4). BONI. R. C. et al. Comportamento da mordida aberta anterior, apos a remocao do habito de succao . J Brás Ortod Ortop Maxilar, v. 2, n. 12, p. 35-40, nov./dez. 1997.

(5). CHAN. C. et al. Estudo cefalometrico dos efeitos esquileticos e dentários do habito persistente de sucção de chupeta. Revi. Odontol UNESP, v. 25, n. Esp., p. 171-182. 1996.

(6). CHRISTENSEN. J. FIELDS. H. Hábitos bucais. In: PINKHAM. J. R. Odontopediatria da infância à adolescencia. 2. ed São Paulo: Artes Médicas. 1996. p. 400-407.

(7). CUNHA. S. R. T. et al. Hábitos bucais. In: CORRÊA. M.S. N. P. Odontopediatria na primeira infância. São Paulo: Santos, 1998. p. 561-576.

(8). ESTRIPEAUT. L. e. at al. Hábito de sucção do polegar e má-oclusão: apresentação de um caso clínico. Revi. Odontol Univ São Paulo. v. 3. n. 2. p. 371-376, abr./jun. 1989.

(9). GARCÊS. G. A  Succión  Del pulpar. Problables causas y tratamientos rev. ADM v.36 n. 4. p. 417-419. jul./ago. 1979.

(10). KLEIN. E. T. The thumb-sucking habit: meaningful or empty? Am Orthod. V.59. n. 3. p.283-289. Mar. 1971.

(11). LANGRADE. M. Disgnóstico ortodôntico. São Paulo: Santos. 1995. 742 p.

(12). LINO. A P. Hábitos e alterações da seqüência de erupção dentária. In: LASCALA. N. T. Atualização clínica em odontologia. São Paulo: Artes Médicas. 1982. p. 31-35.

(13). LINO. A P. Ortodontia preventiva básica. 2 ed. São Paulo: Artes Médicas. 1994 190p.

(14). MERCADANTE. M. M. N. Hábitos em Ortodontia. In: FERREIRA. F. V. Ortodontia: Diagnóstico e Planejamento clínico. São Paulo: Artes Médicas. 1996 p. 245-271.

(15). MOYERS. R. E. Ortodontia. 4. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan. 1991 483 p.

(16). PASTOR. I., FRANCO. F. C. M. Considerações sobre o uso de chupeta. Jornal do CEO – Bahia. V. 2. 2. 6. p. 4-5. abr. 1999.

(17). ROSSI. M. Promovendo a saúde bucal. Projeto inovações no ensino básico: componente saúde. São  Paulo: FUNDAP 1998. 26 p.

(18). SARMENTO. I. P. M. Anomalias adquiridas por maus hábitos. Rev i. Fac Odontol. UFBA. V. 5. p. 7-36. jan./dez. 1985.

(19). SCHALKA. M. M. S., RODRIGUES. C. R. M. D. A importância do médico pediatra na promoção de saúde bucal. Revi. Saúde Pública. V. 30. n. 2. p. 179-186. abr. 1996.

(20). SILVA FILHO. O.   G. et al. Hábitos de sucção: elementos passíveis de intervenção. Estomatol Cult. V. 16. n. 4. p. 61-71, out./dez. 1986.

(21). SILVA FILHO. O. G.  et al. Sucção digital: abordagem multidisciplinar: Ortodontia x Psicologia x Fonoaudiologia. Estomatol Cult. V. 16. n. 2. p. 44-52. abr./jun. 1986.

(22). SILVA FILHO. O. G.  et al. Sucking habits: clinical management in dentistry. J Clin Pediatr Dent. V. 15 n. 3. p. 137-156.

(23). TENTI. F. V. Atlas de aparelhos ortodônticos: fixos e removíveis, como e por que selecioná-los. São Paulo: Santos. 1993. 365p.

(24). TOLEDO. O.  A ., BEZERRA. A . c. b. Hábitos bucais indesejáveis. In: TOLEDO O.  A . Odontopediatria: fundamentos para a prática clínica. 2 ed. São Paulo: Premier. 1996. P. 319-326.

(25). WALTER. L. R. F.  et al. Odontologia para o bebê: Odontopediatria do nascimento aos três anos. São Paulo: Artes Médicas. 1996. 246 p.

(26). ZADIK. D. et al.  Thumb-and pacifier-sucking habits. Am j Orthod. V. 71. n. 2. p. 197-201. Feb. 1977.

Autor/Fonte:
Fonte: Revista APCD Vol. 57 - N.1 JAN./FEV. 2003


VER OUTROS ARTIGOS CIENTÍFICOS

 
Uniodonto de Sorocaba Cooperativa de Trabalho Odontológico
Av Barão de Tatui, 628 Sorocaba/SP Fone / Fax: (15) 3234.9424
© Copyright 2003 -
Todos os direitos reservados.
desenvolvido por
STUDIODESIGNBR.COM / NEXXUXNT